Sobre o conceito de Saúde, Outubro Rosa e o respeito à mulher
O Outubro Rosa é uma campanha promovida pelo Instituto Nacional de Câncer – INCA desde o ano de 2010/ Foto: Divulgação
Prefeitura de Guararema

Por: Carlos Fernando Foganholi

O câncer se encontra hoje entre as principais causas de mortalidade da população geral no Brasil.

Nas mulheres, o tipo mais incidente de câncer, logo após do câncer de pele não melanoma, é o câncer de mama. Este corresponde a cerca de 25% dos casos novos a cada ano.

O Outubro Rosa é uma campanha promovida pelo Instituto Nacional de Câncer – INCA desde o ano de 2010, para a abordagem a prevenção e detecção precoce do câncer de mama e surgiu a partir movimentos realizados nos Estados Unidos, na década de 1990, para estimular a participação da população no controle da doença.

No IF – instituto Foganholi, organização social que presido, decidimos tratar o mês que convencionalmente é utilizado para alertar as mulheres e a sociedade no geral sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama e mais recentemente sobre o câncer de colo do útero, de forma um pouco diferente.

Decidimos abrir o leque e tratar a saúde da mulher de forma ampla, seguindo o que diz a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Segundo OMS, agência especializada no tema, fundada em 7 de abril de 1948 e subordinada à Organização das Nações Unidas, o conceito de saúde é “o estado de completo bem-estar físico, mental e social”, e não apenas a “ausência de doença ou enfermidade”.

Sim, não basta “não estar acometido de alguma doença”, seja ela qual for – hipertensão, diabetes ou depressão – se outros planos de sua vida não estiverem bem, você não é considerado uma pessoa saudável.

Falamos sobre isso no mês que se passou, durante o Setembro Amarelo, mês que contempla o debate acerca da prevenção ao suicídio e saúde mental, bem como seus cuidados e, nesse quesito mais uma vez a OMS diz que a saúde mental é determinada por uma série de fatores “socioeconômicos, biológicos e ambientais”.

Além de fatores de ordem genética (biológicos) e catástrofes (ambientais), gostaria de frisar com maior ênfase os fatores socioeconômicos dizendo: viver em um bairro de periferia em condições absolutamente precárias de urbanização, higiene e saneamento básico, envolto em violência, desemprego numa situação socialmente vulnerável – realidades que criam um verdadeiro “efeito dominó”, ocasionando conflitos familiares e afetivos – ocasiona sobrecargas mentais que desestabilizam a pessoa, deixando-a doente.

Segundo dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 35 milhões de brasileiros não têm acesso a água tratada.

Metade da população não tem acesso aos serviços de coleta de esgoto. Dos efluentes coletados, apenas 45% são tratados.

Além disso, 1.935 dos 5.570 municípios brasileiros, ou 34,7% do total, ainda registram epidemias ou endemias relacionadas à falta ou à deficiência de saneamento básico.

De forma ainda mais específica, quando se trata da mulher então, a coisa fica ainda mais complexa, pois, diariamente, a mulher sofre uma série de violências, como a VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA (caracterizada por abusos sofridos por mulheres quando procuram serviços de saúde, como negar o tratamento durante o parto, humilhações verbais, desconsideração das necessidades e dores, práticas invasivas, violência física, uso desnecessário de medicamentos, intervenções médicas forçadas e coagidas, detenção em instalações por falta de pagamento, desumanização ou tratamento rude, discriminação baseada em raça, origem étnica ou econômica, idade, status de HIV, não-conformidade de gênero entre outros e negligência), VIOLÊNCIA FÍSICA (caracterizada por condutas que ofendam a integridade ou saúde corporal da mulher, como espancamento, estrangulamento / sufocamento, lesões com objetos pérfuro cortantes, ferimentos causados por queimaduras ou armas de fogo e tortura), VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA (caracterizada por condutas que causem dano emocional e diminuição da autoestima, prejudiquem e perturbem o pleno desenvolvimento da mulher, visem degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões como ameaças, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento – proibir de estudar, viajar, falar com amigos e parentes – vigilância constante, perseguição contumaz, insultos, chantagem, exploração, limitação do direito de ir e vir, ridicularização, privar liberdade de crença ou distorcer e omitir fatos para deixar a mulher em dúvida sobre sua memória e sanidade, conhecido como “gaslighting”), VIOLÊNCIA SEXUAL (caracterizada por condutas que constranjam a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força, como estupro, obrigação de fazer atos sexuais que causam desconforto ou repulsa, impedir o uso de métodos contraceptivos, forçar a prática de aborto, forçar matrimônio, gravidez ou prostituição por meio de coação, chantagem, suborno ou manipulação e limitar ou anular o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher), VIOLÊNCIA PATRIMONIAL (caracterizada por condutas que configurem retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades, como controlar o dinheiro, deixar de pagar pensão alimentícia, destruição de documentos pessoais, furto, extorsão ou dano, estelionato, privar de bens, valores ou recursos econômicos e causar danos propositais a objetos da mulher ou dos quais ela goste) e VIOLÊNCIA MORAL (caracterizada por condutas que configurem calúnia, difamação ou injúria, como acusar a mulher de traição, emitir juízos morais sobre a conduta, fazer críticas mentirosas, expor a vida íntima, rebaixar a mulher por meio de xingamentos que incidem sobre sua índole e desvalorizar a vítima pelo seu modo de vestir.

A questão saúde não se encerra em seu significado etimológico, é uma grande “colcha de retalhos” feita de partes de outras coisas.

A realidade adoecimento x cura / doença x saúde é diferente de pessoa para pessoa, mas também ao longo de sua vida e a construção desse combate passa não apenas por profissionais da área da saúde, mas também por governantes bem-intencionados dispostos a tratar a questão da saúde de forma integral e não apenas paliativa.

Portanto, ao entender a amplitude de saúde começamos a caminhar em direção a uma melhor qualidade de vida para as mulheres.

Pensar em prevenção é acolher e ensinar sobre o autocuidado e amor próprio, e o outubro rosa vem nos instruir sobre a importância disso.

As políticas públicas possuem um papel excepcional ao estimulo da saúde e ao combate a fatores externos contra as mulheres como a violência e a falta de espaços.

Afinal, a ausência de condições e possibilidades minam qualquer indivíduo de sua própria autonomia e dignidade de ser, e se quisermos rumar a um país de fato democrático em que todos possuem o mesmo direito, falar sobre isso é um início e o IF – Instituto Foganholi está engajado nessa.

Carlos Fernando Foganholi, médico, ativista social e articulista político.