“Não há vitória no combate ao álcool e às drogas que não passe pelo enfrentamento à fuga e à solidão”
Filho de um alcoólatra, Nelson Giovanelli, 57 anos, diz que aprendeu dentro da própria casa a encarar a dependência química como um exercício familiar de tolerância, de compaixão e de superação/ Foto: Divulgação
Tenda Atacado

Carla Fiamini

Especial para o Oi Diário

O dia 26 de junho é como se fosse um segundo aniversário para Nelson Giovanelli.

Escolhida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional de Combate às Drogas e como o Dia Internacional contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas, a data faz com que o senhor de 57 anos que fala fluentemente cinco idiomas relembre os percalços pelos quais passou na infância e na adolescência, com direito a um pai alcoólatra, e recicle a gratidão pela oportunidade que teve em transformar sua experiência pessoal em missão – a de trabalhar pela recuperação de dependentes químicos de vários regiões do Brasil e do mundo.

Foi direcionando um olhar especial ao pai, que chegava embriagado em casa constantemente, que Giovanelli percebeu, aos 17 anos, que o vício em drogas e em álcool não é, tão somente, uma necessidade do organismo, uma questão de abstinência física. Com precisão, ele se lembra, como se fosse ontem, do dia em que, cansado da dependência química do pai, procurou aconselhamento de frei Hans Stapel, na paróquia que frequentava com a família, após a missa.

Nas palavras do religioso, Giovanelli encontrou conforto e o perdão como instrumento transformador na relação de um viciado com o seu meio e com toda a sociedade:

“Eu, meus irmãos e minha mãe já não sabíamos mais o que pensar, ou fazer. Num dia que em que eu estava muito esgotado e triste, procurei o frei após a missa. Precisava que alguém me ouvisse, pois aquela situação estava me sufocando. A ele, falei tudo o que acontecia em casa, mesmo envergonhado, porque o álcool, há 30 anos, era muito mais estigmatizado que nos dias de hoje. Entre tantas coisas lindas que ele me disse naquela ocasião, estava a importância de eu perdoar meu pai por ser como ele era, de aceitar ele como era, pois meu pai também tinha suas tristezas e faltas, e de amá-lo como ele era. Aprendi naquele dia que o álcool e outras drogas não são necessidades apenas do corpo, do organismo. Elas são anestésicos de fuga e de solidão. E, a gente só combate solidão e faltas com amor”, acrescenta Giovanelli.

Exercitar a compaixão com o pai viciado fez com que a convivência em casa mudasse ao ponto em que o álcool começasse a conceder espaço para a esperança e para um futuro melhor àquela família de classe média.

Giovanelli não sabia, no entanto, que a exitosa experiência restrita ao ambiente doméstico fosse mudar sua vida para sempre e tantas outras vidas que a ele foram confiadas nos últimos 37 anos.

Um dia, voltando do trabalho, deparou-se comjovens viciados numa esquina. Incomodado com a situação do grupo, e entendendo que a eles também faltava o que faltou um dia ao seu pai, como empatia e compreensão, compartilhou a demanda com Hans.

Ali, naquele desabafo despretensioso, nasceu o trabalho de acolhimento e de recuperação de viciadosque, hoje, coleciona 37 anos de história e está presente em 23 países sob a alcunha de Fazenda Esperança.

Em entrevista exclusiva concedida ao jornal OI Diário, Giovanelli conta sobre o projeto e sua rotina, revisita os momentos mais marcantes nessas quase quatro décadas de entrega, incluindo o encontro com dois papas, e destaca a responsabilidade de ser o único brasileiro membro da Comissão Pontifícia para a Tutela dos Menores (PCTM) – ligada ao Vaticano – e de ter, junto ao sempre parceiro de jornada frei Hans, abrigado mais de 1,2 mil moradores de rua nos últimos três meses, a fim de protegê-los da pandemia de Coronavírus:

“Da mesma maneira que sabemos que não há vitória no combate ao álcool e às drogas que não passe pelo enfrentamento à fuga e à solidão, não há enfrentamento à uma pandemia de contornos internacionais sem compaixão e solidariedade. Ficar assistindo a tudo sem estender a mão seria como ser cumplice da devastação deixada pela peste”.

OI Diário:Por que decidiu doar sua vida para a recuperação de viciados em drogas e em álcool? Essa escolha tem relação com alguma experiência pessoal?

Nelson Giovanelli:Desde pequeno, eu alimentava a esperança de não ver mais meu pai chegar alcoolizado em casa, de ver meus pais se entenderem. Também vivi minha adolescência na expectativa de que algo mudasse e convencido de que seríamos felizes quando meu pai parasse de beber. Num dia em que eu estava muito esgotado e triste, procurei o frei Hans Stapel, franciscano da Ordem dos Frades Menores, e que hoje está com 74 anos. Ele era pároco da Paróquia Nossa Senhora da Glória, que eu frequentava com minha família. Precisava que alguém me ouvisse, pois aquela situação estava me sufocando, e eu, meus irmãos e minha mãe já não sabíamos mais o que fazer. Contei a ele sobre tudo o que acontecia em casa. Disse-lhe que a culpa de todos os problemas que eu tinha, de todos os problemas que tínhamos em casa, era do meu pai. No final, o frei me disse que o problema não estavano meu pai, mas, sim, em mim, pois eu ainda não havia enxergado Jesus nele, inclusive quando ele chegava embriagado em casa. Ele me disse que eu tinha que perdoar, aceitar o outro, que não cabia a mim julgar. Naquele dia, a esperança entrou no meu coração. A ficha caiu. Voltei decidido para casa. Percebi que eu não precisava mais esperar que meu pai parasse de beber. Eu que precisava amá-lo e acolhê-lo. Lembro como se fosse hoje de chegar e ver ele na sala. Fui até a cozinha e fiz um café para ele. Aquele café nos libertou. Foi um novo começo para nós dois e para minha família. A recuperação de um viciado passa, sim, por consciência, por querer se livrar das drogas e do álcool, mas tem muito a ver com falta, com fuga, com tristeza. E isso tudo precisa ser reparado com amor. Resumindo: o problema nem sempre está naquele que me faz sofrer, mas, sim, em mim, por não aceitar o outro como ele é, incluindo vícios e virtudes.

OI Diário:Seu trabalho com dependentes teve início logo após esta experiência familiar?

G.:A partir daquele dia, do cafezinho com meu pai, começamos em casa uma nova experiência familiar. Logo, meu pai começou a ter novas posturas e até conseguiu um trabalho em Moçambique, na África. Para mim, meu pai, na época, era uma demanda parcialmente resolvida, pois entendo, até hoje, que não há cura para um viciado, mas, sim, controle, monitoramento. Basta, afinal, um gole, uma recaída. Mas, não demorou para me deparar com uma segunda oportunidade de resgate. Desta vez, no entanto, diferente, pois não era alguém da minha família. Sempre que eu voltava do meu trabalho, de bicicleta, passava por uma esquina, localizada no bairro do Pedregulho, em Guaratinguetá. Resolvi, um dia, me aproximar dos jovens que ali se reuniam para traficar e usar drogas. Comecei a conversar com um rapaz que fazia artesanato. A conversa começou assim, falando sobre as pulseiras que ele tão bem elaborava. Aos poucos, começou a se abrir comigo. 

OI Diário: O senhor acha que o fato de ouvir sem julgar é fundamental no acolhimento inicial?

G.:Sem dúvidas. Afinal, você não confidencia situações a quem não confia, ou a quem só lhe julga e critica. Nós acabamos nos tornando próximos, eu e este rapaz. Cheguei a ir à casa dele. E, um dia, depois de um tempão, ele me abriu suas tristezas. Vi ali meu pai. Eram as mesmas carências e fugas, os mesmos medos, e que faziam das drogas a anestesia ideal. Então, ele me pediu um abraço. Senti alegria por aquilo, pois tinha muito a ver com confiança. Por meio dele, me aproximei de alguns outros jovens que frequentavam a tal esquina – um total de 20. O trabalho de ouvir um a um foi fundamental. Da convivência respeitosa, e sem julgamentos, histórias foram surgindo. Cada um ali tinha um motivo, uma situação familiar, um problema, uma justificativa para estar naquela situação.

OI Diário:Algum jovem começou a se livrar das drogas após esta interferência, esta aproximação?

G.: Certo dia, um dos jovens da “esquina” pediu minha bicicleta emprestada. Na hora, pensei que ele poderia vendê-la para comprar droga.Mas, e se não fosse isso? Não cabia a mim julgar, não é? Então, eu escolhi emprestar a ele meu único meio de transporte. Dias depois, os “maninhos” me devolveram a bicicleta limpa e com o banco, que estava quebrado, consertado. Na hora que me devolveram, eles me falaram que quase fiquei sem a bicicleta, porque eles iam, mesmo, trocar ela por droga. Mas, depois, voltaram atrás. A confiança entre todos nós só aumentou depois daquilo. Logo depois, um dos jovens, Antônio Eleutério, me pediu ajuda para sair das drogas. Então, pedi ajuda ao frei Hans com essa demanda. Foi, então, que ele decidiu começar um trabalho comigo no acolhimento de jovens que desejavam encontrar um novo estilo de vida. O projeto teve início ali, mesmo, na paróquia. Depois, ganhou um novo espaço e um nome: Fazenda da Esperança.

OI Diário:A Fazenda Esperança, a matriz, funciona em Guaratinguetá. Mas, também se espalhou por outros lugares do Brasil e do mundo. Quantas são as unidades, hoje, e como esta estrutura se mantém?

G.: A Fazenda Boa Esperança está hoje em 23 países. São 146 núcleos na Ásia, na África, na América e na Europa. No Brasil, são 92 espaços, sendo que seis ficam no Estado de São Paulo. A comunidade terapêutica acolhe pessoas de 18 a 59 anos que desejam livremente se recuperar de drogas, de álcool e de outros vícios. No dia da entrevista, são exigidos documentos e exames médicos. O acolhimento e recuperação dura, no mínimo, um ano. Quem pretende enfrentar esse desafio dá o primeiro passo escrevendo uma carta, por próprio punho, manifestando os motivos que justificam essa tentativa de mudança de vida. Não é cobrado nada de quem é acolhido, não diretamente. Chamamos de gratuidade participativa – não paternalista. O familiar, assim, se compromete a vender os produtos que ele vai produzir aqui, como marmeladas, produtos hortifrutigranjeiros, artesanato. Essa é uma forma, também, de sabermos se a família quer se livrar do parente ou participar de sua cura. O acolhido trabalha internamento na comunidade, ajuda nos afazeres, pois isto também faz parte do tratamento. Também mantemos tudo por aqui por meio de doações de pessoas físicas e jurídicas. Para algumas ações, ainda contamos com apoio do governo federal.

OI Diário: Uma das coisas que mais chama a atenção na Fazenda Esperança é o fato de ela não ter grandes grades. A pedagogia de recuperação é alicerçada em que pilares:

N.G.:O método de acolhimento contempla três aspectos determinantes: o trabalhocomo processo pedagógico; a convivência em família; e a espiritualidade como busca do sentido da vida. Apesar de termos DNA católico, qualquer pessoa, de qualquer religião, é muito bem-vinda por aqui. A pessoa que chega até a Fazenda Esperança percebe, inclusive, que não existe um portão, com tudo trancado, ou seja, quem está aqui é porque deseja, de verdade. Importante também reiterar que parentes podem visitar o acolhido a partir do terceiro mês. Um outro diferencial da Fazenda Esperança é acolher gestantes e mães com seus filhos crianças, ao contrário de outras comunidades e clínicas de recuperação. Consideramos importante que a mãe tenha seus filhos por perto e não se distancie durante os 12 meses de recuperação e de enfrentamento às drogas ou ao álcool. 

OI Diário: Como é a rotina de quem é acolhido pela Fazenda Esperança?

N.G.:Por aqui, todo mundo levanta cedo, inclusive eu e o frei Hans. Temos momento de oração, depois café da manhã. Damos, em seguida, à jornada de trabalho, que varia de 6 horas e 7 horas. A rotina ainda abarca atividades esportivas, formação e ações culturais e recreativas. Importante lembrar que, geralmente, quem usa drogas é alguém pouco disciplinado. Então, ter rotina, horários e regras, por aqui, ajuda, e muito, o acolhido a se organizar por dentro e por fora, a ter responsabilidades, a ser pontual. Chamamos isso de “Método do Homem Novo”. 

OI Diário: O senhor diz que, quem trabalhas na Fazenda Esperança são “leigos” com boa vontade. Como fazer essa recuperação face a um vício sem medicamentos, sem médicos?

N.G.:A droga e o álcool estão conectados à fuga, à solidão, à tristeza, a um vazio. O homem não é um ser só espiritual. Ele precisa de bens materiais, de realização. Nem sempre ele tem tudo o que quer, nem quando quer. Cada um de nós encara de uma maneira decepções, percas, carência. E, com o advento das redes sociais, isso piorou muito. Alguns recorrem ao vício, que só anestesia, dá até uma sensação boa na hora, mas, depois, piora a situação física e mental de quem opta por isso. Como aconteceu com meu pai, com os jovens daquela esquina e com tantos outros que já passaram por aqui, a falta de amor, de acolhimento e de compreensão foram muito latentes. Claro que não há receita pronta. Afinal, cada um é cada um. Mas, existe um caminho. Claro, também, que não temos 100% de recuperação. Hoje, 60% permanece e se recupera. Uma das coisas mais difíceis para um viciado é admitir que se é fraco face à qualquer dependência. 

OI Diário:Quantas pessoas já passaram pela Fazenda Esperança? Tem algum caso que marcou o senhor?

N.G.: Você lembra quando eu falei sobre os 20 jovens da tal esquina de Guaratinguetá? Então, deles, a Fazenda Esperança acolheu cinco. Quatro deles se estabeleceram por aqui e se recuperaram. Um é casado, formou família, é avô e cuida do nosso Setor de Esporte. São tantas histórias de superação. Afinal, mais de 30 mil pessoas já passaram por nós. E, não é superar a droga, o vício, o álcool. É superar a si mesmo lançando mão de compaixão com si mesmo, também. Há um caso que é bem simbólico: o de Ricardo Ribeirinha. Abandonado pela família e, depois, adotado, cresceu revoltado e encontrou na maconha alívio. Não demorou para investir em benzina e cola e, tempos depois, em atuar com tráfico. Sustentava o vício levando drogas de um lado a outro, ainda criança. Na adolescência, praticava furtos e já andava armado. Veio para por aqui com uma bala alojada no joelho e completamente transtornado. Hoje, é referência da luta contra as drogas, além de palestrante, escritor e fundador do projeto “Recriar Vida”. Não foi fácil. Pelo contrário. Mas, Ricardo, assim como tantos outros homens e mulheres que passam por aqui aprenderam que o hábito do bem, apesar de ser mais demorado para se construir, é o que, no final, vale mais a pena ter.

OI Diário:Exercitar a tolerância e conhecer os próprios limites são condições importantes para quem quer se livrar de vícios?

N.G.: Não apenas para quem a gente abriga na Fazenda Esperança. O mundo seria melhor, caso todos soubessem da importância da tolerância. Lhe darei um exemplo prático: Temos um voluntário ateu na Alemanha. Ele não acredita em Deus, mas acredita na proposta evangélica do amor de nosso projeto. Quando temos os nossos cultos com os abrigados, ele participa por amor aos que acreditam. Isso também é exercitar a tolerância. Na Fazenda Esperança, quem trabalha, quem se doa, quem participa de alguma forma também acaba aprendendo muita coisa, se aprimorando.

OI Diário:O senhor não é casado, não teve filhos. Isso lhe faz falta?

N.G.: A vida não erra quando temos uma missão. Tenho uma vida feliz, jamais pensei em desistir de nada que tenha relação com nosso trabalho por aqui. Tive um relacionamento tempos atrás e eu mesmo achei melhor colocar um ponto final, pois eu não estaria conseguindo conciliar o namoro com o projeto da Fazenda Esperança, além de não ser nada honesto com minha companheira, ficando ausente, não correspondendo às expectativas. Fora isso, estudo muito. Sou workaholic. Acordo cedo, muitas vezes, 5 da madrugada. Faço vários cursos, leio muito, inclusive, autoajuda, e sempre estou me informando por meio da Imprensa. Já cursei Teologia e várias línguas. O italiano eu aprendi com minha mãe, que era natural da Itália. O português, língua da minha pátria, com meu pai. Mas, falar alemão, inglês e espanhol dependeu de minha dedicação, além de serem idiomas necessários para o trabalho que empreendemos fora do Brasil. 

OI Diário:Em algum momento da vida, pensou em desistir do projeto?

N.G.: De maneira alguma. Vivo assim há quase 40 anos e me sinto muito feliz. Sei que estou no lugar certo. Nunca pensei em desistir. Quando bate alguma dúvida, penso na coragem e dedicação dos meus avós, mesmo em meio a uma vida tão sofrida, difícil. Meu avô teve 29 filhos – 13 com a primeira mulher. Quando ela faleceu, ele se casou com a segunda esposa, minha avó, que, além de cuidar dos 13 filhos de meu avô, ainda teve mais 16 filhos com ele. Aprendi dentro de casa que jamais abandonamos nossa família. É contra a nossa natureza desistir de um familiar. E minha relação com a Fazenda Esperança é visceral desta maneira, é como se fosse um filho para mim, e filho não se abandona, jamais. 

OI Diário: O senhor já esteve com dois papas. Como foi?

N.G.: O Bento 16 esteve na nossa Fazenda em 2007. Na época, tínhamos 46 comunidades. Depois da visita dele, ficamos ainda mais conhecidos e conseguimos crescer e atender mais pessoas. O que mais me impressionou na época foi de ver ali, um papa cumprimentando nossos jovens, com muita entrega. Tempos depois, em 2010, estive em Roma, em sua casa. Cheguei lá cheio de roteiros na cabeça. Eis que ele mesmo começa a conversa se recordando de quando esteve em nossa comunidade. Foi muito emocionante. Já em 2016, estive com o papa Francisco, no Vaticano. Nosso encontro levou 40 minutos. Levei a ele um boneco catequético, feito em nossa Fazenda, que fica em pé quando colocamos na mão dele uma peça, que representa a palavra de Deus. Ao ver o boneco, ele quis na hora gravar um vídeo para os nossos jovens. Ficou sensibilizado pela forma como trabalhamos na Fazenda, sobretudo por não nos preocuparmos apenas em oferecer condições aos viciados para que haja a recuperação física, mas, também, elementos espirituais e sacramentais que permitam que os acolhidos, jovens ou adultos, possam se manter lá fora, após a alta. 

OI Diário:A Fazenda Esperança conta com uma aprovação pontifícia por parte do Vaticano como Associação Internacional de Fiéis. O que isso significa?

N.G.: Significa responsabilidade, assim como também encaro com responsabilidade e comprometimento o espaço que ocupo na Comissão Pontifícia para a Tutela dos Menores (PCTM). O colegiado existe desde 2014 e é formado por 16 membros, de diferentes partes do mundo. Sou o único brasileiro. A principal finalidade é promovermos trabalhos que previnam e combatam abusos sexuais na igreja.

OI Diário – Com a pandemia de Covid-19, o senhor e o frei Hans optaram em acolher moradores de rua. Como se deu este trabalho?

N.G.: Abrigamos mais de 1,2 mil moradores de rua nos últimos três meses, a fim de protegê-los da pandemia de Coronavírus. Da mesma maneira que sabemos que não há vitória no combate ao álcool e às drogas que não passe pelo enfrentamento à fuga e à solidão, não há enfrentamento à uma pandemia de contornos internacionais sem compaixão e solidariedade. Ficar assistindo a tudo sem estender a mão seria como ser cumplice da devastação deixada pela peste. Se ficassem na rua, morreriam, sem chances.

OI Diário: Qual trecho da Bíblia o senhor mais prefere?

N.G.: Sem dúvidas, Mateus, que trata do Juízo Final, com destaque para a frase “O que fizerdes ao menor dos meus irmãos, a mim o fazeis”.

OI Diário: Como o senhor considera o papel do poder público no enfrentamento do álcool e das drogas?

N.G.: A Fazenda Esperança conta já há algum tempo com incentivo financeiro por parte do governo federal. Aos poucos, conseguimos fazer com que a União entendesse que ela pode subsidiar e fiscalizar, mas que não tem condições de ser especialista no assunto ao ponto de trabalhar na recuperação e de ter resultados consistentes com isso. Muitos, inclusive, nos perguntavam como conseguíamos isso, uma vez que o Estado é laico. Eu sempre digo que o Estado é laico, mas o povo é religioso e que há trabalhos como o da Fazenda Esperança, que têm abordagem espiritual, que são sérios e que podem salvar muitas vidas.

OI Diário: Por que Fazenda Esperança?

N.G.:Em 1985, quando tínhamos dois anos de existência, recebemos a visita de uma equipe de Reportagem do programa “Fantástico”, da TV Globo. Na época, nosso trabalho era muito vinculado aos trabalhos sociais realizados pelo frei Hans. Então, não tínhamos um nome só nosso. Nem tínhamos pensando nisso. Eis que a repórter nos pergunta o nome do nosso projeto. Eu falei para ela: ‘Obra Social Nossa Senhora da Glória’. Na hora que ela foi gravar a passagem dela, ela olhou para o câmera e disse: ‘Hoje, estou aqui, na Fazenda da Esperança’. Depois que a reportagem foi ao ar, não teve nem como não adotar o novo nome. Todos nos procuravam já dizendo que aqui era a Fazenda Esperança.