Juliano Abe fala dos desafios do Meio Ambiente em Mogi, Alto Tietê, Brasil e afirma: “Não gosto da gestão ambiental do governo Bolsonaro”
No mês em que é celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho) Juliano, que também é consultor ambiental, revela em suas respostas que conhece do assunto/ Foto: Ney Sarmento/PMMC

Juliano Abe, advogado com especialização em Direito Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e vice-prefeito de Mogi das Cruzes fala sobre os desafios ambientais em sua cidade, no Alto Tietê e no Brasil.

No mês em que é celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho) Juliano, que também é consultor ambiental, revela em suas respostas que conhece do assunto.

Jornal Oi – Mogi é a única cidade do Alto Tietê que está promovendo o Junho Verde com extensa programação voltada ao Dia do Meio Ambiente (5 de junho). Quais são os retornos que o governo de Mogi espera em termos de conscientização e obtenção de recursos para projetos ambientais com a realização do Junho Verde?

Juliano Abe: Idealizamos o Junho Verde ainda em 2017 para fortalecer a conscientização e sensibilização ambiental na cidade.

E o mais importante, dentro de um planejamento estruturado. O programa foi pensado pela Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente para induzir a interação e o compartilhamento de políticas públicas sustentáveis entre as Secretarias, fazendo com que esse aprendizado propiciasse, no ano seguinte, a obtenção do Selo Município Verde Azul, concedido pelo Governo do Estado.

Essa conquista só foi possível pelo trabalho conjunto de todas as secretarias. O Selo permite a Mogi acessar créditos e repasses governamentais como, por exemplo, do Fundo Estadual do Combate à Poluição, onde solicitamos verba para aquisição de maquinários e equipamentos para a nossa Central de Triagem e s aguardamos a aprovação.

Jornal Oi – Nos últimos três anos e meio quais foram os maiores avanços de Mogi na área de preservação ambiental?

Jornal Oi – O setor de comunicação da prefeitura fala da meta de se plantar 50 mil arvores. Como foi estabelecida essa meta e quantas foram plantadas desde o inicio do atual governo?

Juliano Abe: De novo, as ações e avanços ambientais não podem ser mensurados apenas pelas metas traçadas pela Secretaria de Meio Ambiente, pois conceitos ambientais devem ser executados por todas as Pastas.

Alguns exemplos: passamos a gerar, por meio da Secretaria Municipal de Planejamento e Urbanismo, projetos de arquitetura de prédios públicos, com aproveitamento e reuso de água de chuva, captação solar para geração de energia, aumento das áreas permeáveis e outros aspectos.

As novas creches, tanto as já entregues nesta administração, como as que estão em obras possuem essas características.

A Secretaria de Agricultura, pela primeira vez, passou a, além de focar o fortalecimento do setor agrícola e de abastecimento, também a adequação ambiental de propriedades rurais, tendo feito uma parceria para instalar miniestações de tratamento de esgoto na zona rural.

E quanto ao plantio já estamos em 32 mil mudas plantadas. Esse trabalho foi prejudicado pela pandemia do novo coronavírus porque, em março deste ano, começaria o megaesforço de plantio, considerando a época apropriada para a evolução das espécies.

Jornal Oi – Quais são, em sua avaliação, os 10 maiores desafios ambientais de Mogi para os próximos 10 anos?  Os desafios ambientais do Alto Tietê são iguais aos de Mogi?

Juliano Abe: Vou listar os 10 maiores desafios, mas não em ordem de importância; e sim, entendo que esses desafios são compartilhados no Alto Tietê:

1) Enriquecimento da Arborização Urbana;

2)   Criação de novas unidades de conservação e recomposição florestal das existentes;

3)   Geração de um banco de sementes e fortalecimento de viveiros de mudas nativas;

4)   Universalização da coleta e tratamento de esgoto e abastecimento de água potável;

5)   Fomento à geração de energia alternativa e renovável;

6)   Regularização fundiária e impedimento de construções irregulares;

7)   Incremento e qualificação da coleta seletiva;

8)   Destinação adequada dos resíduos sólidos;

9)   Inovação na Educação, Conscientização e Sensibilização Ambiental;

10) Compartilhamento e integração de responsabilidades.

Jornal Oi – Não é de hoje que se fala de um Corredor Ecológico unindo a Serra do Itapety a Serra do Mar, passando pelas várzeas do Rio Tietê e pela zona rural de Mogi das Cruzes. Isso inclusive foi tema de live com integrantes do governo nessa semana. Qual é a necessidade e a importância desse Corredor?

Jornal Oi – O que é esse Corredor, uma faixa de mata para passagem de animais?

Jornal Oi – Quanto custará e quando será implantado?

Juliano Abe: Podemos dizer que é uma faixa de mata, mas não apenas para passagem de animais, mas para garantir o que chamamos de fluxo gênico, ou seja, o fluxo de genes, tanto da fauna (animais) como da flora (vegetais), permitindo o enriquecimento do bioma de Mata Atlântica numa região central da nossa Mogi.

A vantagem de um planejamento urbano adequado, seja por um instrumento com o Plano Diretor, ou suas ferramentas, como a Lei de Ordenamento de Uso e Ocupação do Solo, é que permite que os custos de implantação, como de um Corredor Ecológico, possam ser diluídos no longo prazo, sem a necessidade de grandes investimentos.

E para fortalecer ainda mais o aparato institucional e jurídico, estamos debatendo e submetendo à consulta pública o Plano Municipal da Mata Atlântica.

Jornal Oi – Há mais de 10 anos, quando assumiu a prefeitura para o seu primeiro mandato, o ex-prefeito Bertaiolli afirmou que despoluir o Tietê em Mogi seria uma prioridade. Despoluir o Tietê em Mogi é uma missão impossível?

Jornal Oi – Isso nunca vai acontecer?

Jornal Oi – Como e quando esse trabalho poderá ser feito?

Juliano Abe: Esse é um sonho de todo prefeito. Meu pai (Junji Abe) sonhou com isso. O Bertaiolli herdou o sonho. E o Marcus Melo, idem. A gente vem caminhando nesse sentido.

No Governo do Junji, entre 2001 a 2008, a cidade passou de 0,5% para 43% de tratamento do esgoto coletado.

Na gestão do Bertaiolli, saltou de 43 para 61%. E agora, com as obras e investimentos já realizados e em execução, iremos saltar para acima de 70% ao final destes primeiros 4 anos.

Eu acredito! E acho uma missão possível e obrigatória na agenda de todo governante da cidade.

O Plano Municipal de Esgotamento Sanitário, que foi revisado recentemente e vem sendo o programa de metas das administrações, fixa 2046 como o ano em que devemos atingir os 100% de tratamento.

Jornal Oi – Até alguns anos havia especialmente em Mogi lideranças da sociedade civil que fomentavam os debates sobre o Meio Ambiente. Por que em sua opinião essas lideranças se calaram?

Jornal Oi – Como atrair os jovens e renovar os debates sobre o Meio Ambiente em Mogi?

Jornal Oi – Esse debate hoje com o Poder Público sendo o único protagonista não está pobre?

Juliano Abe: Boa pergunta! Sinto muita saudade de algumas lideranças. Mas, entendo que existe hoje na cidade um processo de renovação com uma nova geração muito atuante e representativa, e o mais legal, com muito conhecimento técnico e acadêmico.

Vejo em Mogi e, em especial na participação de alguns integrantes do Conselho Municipal, por exemplo, pessoas que representam segmentos de classe muito bem preparadas.

E não concordo que o Poder Público seja hoje o único protagonista. Aliás, é injusto não compartilhar tanto as conquistas como as riquezas dos debates com a sociedade civil.

Jornal Oi – Desde o começo desse século Mogi gasta muito dinheiro para exportar o seu lixo para outras cidades e a Capital. Outras cidades da região também fazem isso. É impossível reverter essa realidade ao menos em Mogi ou esse problema não tem nada a ver com o Meio Ambiente?

Juliano Abe: Tem tudo haver com o meio ambiente. Só acho que classificar como “muito” a despesa para destinação final do lixo não é correto.

Com o devido respeito, esse “muito” deve estar relacionado com um parâmetro. Por exemplo, na minha visão, gastamos “muito” se compararmos com o que investimos em coleta seletiva.

Mas, a despesa para destinação final, como ocorre hoje, é infinitamente menor do que se tivéssemos um passivo ambiental como um aterro em nossa cidade.

Jornal Oi – O senhor chegou a escrever alguns artigos defendendo a inversão de fases do projeto Parque Linear do Tietê que começou a ser executado faz uns 10 anos pelo governo do Estado e DAEE a partir da Capital. O senhor destacou que Mogi tinha condições de receber esse investimento. Os seus argumentos eram consistentes, mas nada aconteceu. Como mobilizar as lideranças políticas da cidade para que esse projeto seja retomado e ocorra a inversão de fases?

Juliano Abe: No final do ano passado e início deste ano, tivemos uma notícia que nos deixou muito empolgados.

O DAEE esteve com integrantes do BID, reunidos em Mogi, para discutir o que viria a ser a próxima fase do programa Parque Várzeas do Tietê, e o projeto previa o investimento em parques em Salesópolis e um grande investimento tanto em Parque como em uma Estação de Tratamento de Esgoto.

Após duas reuniões e visitas técnicas, o Governo do Estado está preparando a documentação para esse financiamento. Estamos no aguardo, e enquanto isso, trabalhando firme para fazer a nossa parte, que é o Projeto +Mogi EcoTietê.

Jornal Oi – Como os jornalistas e as pessoas em geral devem buscar informações no que se refere ao debate nacional do Meio Ambiente?

Hoje predominam as informações (na grande imprensa) de que o governo Bolsonaro e seu ministro Ricardo Salles querem destruir a natureza.

Nos governos do PT tinha-se a avaliação de que o Brasil entregaria a Amazônia para os estrangeiros e para os índios.

Jornal Oi – Qual seria o ponto de equilíbrio adequado, para além dos debates ideológicos de esquerda ou de direita, em relação ao Meio Ambiente?

Juliano Abe: Alguns indicadores são muito óbvios e irrefutáveis como, por exemplo, a comparação feita entre imagens aéreas de satélite, metodologia esta utilizada pela Fundação Mata Atlântica, e não tem como não dizer que, em alguns Estados, realmente houve a perda de cobertura vegetal.

Eu, particularmente, não gosto da gestão ambiental do atual governo brasileiro. Não por questões políticas, mas por enxergar a total ausência do Brasil na liderança de pautas ambientais do planeta. Nós deveríamos liderar a agenda ambiental de energia renovável, do uso sustentável da biodiversidade.

Nós deveríamos ser os grandes ícones dessa agenda global. Mas, a nossa atuação, como nação, é tão pífia que uma menina europeia ganha a atenção do mundo numa agenda, num aspecto, que deveria ser nosso.

Não quero parecer egocêntrico ou desprovido de humildade, porque entendo que o debate ambiental deva ser sempre horizontal, mas, falta coragem e capacidade quando o assunto é a agenda ambiental brasileira.