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Governo do Estado de São Paulo

Por Professor Diego Moreira 

Instagram: @profdiegomoreira

Não é mais novidade na imprensa brasileira se deparar com absurdos defendidos por pessoas influentes nas redes sociais, artistas, empresários e até parlamentares, a exemplo de quem ocupa a maior cadeira da nação. O caso do youtuber que defendeu a não criminalização do nazismo não completou um mês e já estamos novamente atônitos diante de mais um cruel, leviano e absurdo áudio vazado do parlamentar paulista conhecido pelo vulgo “mamãe falei”. É difícil até adjetivar as palavras do deputado por causa da tamanha ojeriza que nos toma ao escutar os áudios vazados do seu grupo de amigos e correligionários.

Especialistas já apontam que vivemos um tempo que é necessário reafirmar o que parece óbvio. Sim, é urgente contar para esses homens brancos e privilegiados, que nazismo é crime e o incentivo ao turismo sexual também é. E calma, pois não estou me referindo aos garotos do 7º ano B do Ensino Fundamental, estou falando sobre homens que possuem mais de 30 anos de idade, usufruem de privilégios econômicos e ocupam espaços de poder.

Não podemos cair na tentativa ingênua de minimizar os feitos alegando que foi apenas um pensamento de um garoto, uma molecagem. O pensamento que subjaz nos áudios do parlamentar (o qual faço coro que seja cassado), a defesa da não criminalização do nazismo feita abertamente por outro parlamentar do mesmo agrupamento político é tão séria quanto a brincadeira infame sobre mulheres no churrasco do final de semana realizadas pelos primos e parentes. Esse pensamento representa o quanto nossa sociedade ainda é estruturalmente machista, sexista, misógina e preconceituosa.

Qual a diferença na matriz de pensamento entre os áudios do parlamentar e a sexualização de meninas e menores de idade na festinha de aniversário?

Qual a diferença no amago do pensamento entre os áudios do parlamentar e as “brincadeiras” misóginas e sexistas que o primão faz no grupo do WhatsApp?

Qual a diferença entre o que pensa o parlamentar e seu grupo de apoio político e todos os homens que contratam mulheres pagando menos e destacando as formas do seu corpo?

Não há diferença!

Pois o pensamento do parlamentar representa milhares de outros homens que agem da mesma forma, enviam vídeos e piadas do mesmo teor.

Embora procure não ser óbvio, precisamos lembrar que a luta das mulheres na história mundial é marcada por conquistas árduas que custaram vidas ao longo dos séculos, as mulheres sangraram, morreram e continuam sendo vítimas dos mais ardis estratégias para que seus direitos não sejam garantidos. A exploração sexual de mulheres ocupa um dos primeiros lugares dos rankings mundiais observe o tamanho dos números.

De acordo com as pesquisas…os dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), o tráfico de pessoas faz cerca de 2,5 milhões de vítimas, movimentando, aproximadamente, 32 bilhões de dólares por ano. A exploração sexual é a razão mais frequente para o tráfico de pessoas (79%). De acordo com a Childhood Pela Proteção da Infância, no Brasil, são 500.000 casos de exploração sexual por ano.

Estamos falando de um mercado bilionário que é alimentado por homens brancos e privilegiados economicamente no Brasil e no Mundo. O pensamento que permeia a cabeça do referido deputado é o mesmo que abre as portas para a objetificação da mulher, para a sexualização de crianças e que culmina no mercado bilionário que lucra com a exploração sexual. A frase a que o parlamentar se referiu Tour the blond é sabidamente uma rota turística de exploração sexual, e como o áudio vazado revela, o amigo dele já é especialista. E se questionarmos um pouco mais o vizinho, o primo e o coleguinha de trabalho, muito provavelmente não encontraremos nenhum estranhamento ou indignação na pauta do turismo sexual.

Observem que não é um assunto de meninos do 7º ano, não estamos aqui falando de jovens adolescentes, embora tentem minimizar a gravidade do assunto, o parlamentar além de agredir, discriminar e violentar simbolicamente às mulheres ucranianas, ele sugere a prática de turismo sexual quando tiver outra oportunidade.

É muito importante que consigamos adentrar com profundidade no problema. O que subjaz na mentalidade de homens como o deputado “mamãe falei”?

Para homens como ele a mulher é apenas objeto do desejo sexual, e devem estar sempre prontas a servi-los. É o pensamento como o do deputado que deixa a porta aberta para qualquer troglodita achar que pode forçar as meninas na balada, é o pensamento semelhante ao do deputado que permite que o motorista de aplicativo “pense” que a saia da mulher é um convite para o sexo. É justamente em razão do pensamento como o do deputado que mulheres são estupradas cotidianamente em todas a regiões do país.

O assédio sexual no transporte público, no ambiente de trabalho e até nos espaços privados são amplamente difundidos e defendidos com base nos mesmos argumentos que o deputado disse sem nenhum constrangimento no seu grupo de amigos. “Elas são fáceis, pois são pobres.”

No Brasil estamos falando de aproximadamente 500.000 casos de exploração sexual ao ano. Pesquisa realizada pela outoftheshadows publicada pelo The Economist, revela que diante das 5 categorias analisadas como; Meio Ambiente que inclui na análise os dados sobre vulnerabilidade, percepções de violências e meios de subsistências entre outras categorias como Enquadramento Jurídico; Engajamento da indústria, sociedade civil e mídia; e Compromisso e capacidade do governo.

Justamente na categoria Compromisso e capacidade do governo é onde determina que o Brasil piore nos indicadores. Ou seja, os governos brasileiros não possuem ou não revelam compromissos efetivos para o combate aos crimes de caráter sexual. Não há movimentos dos governos no Brasil para inibir e punir os crimes sexuais, principalmente contra as mulheres.

O áudio do deputado é o sintoma de uma sociedade que parcialmente apoia a visão sexista, misógina e estruturalmente machista. E encontra eco nos espaços de poder pelas mãos e canais de redes sociais de homens como esse referido deputado que chega ao poder, e possivelmente permanecerá no cargo, com pautas e comportamentos que aprofundam os abusos, que realizam a manutenção de um modelo social perverso, desumano e que naturaliza expressões em que tratam as mulheres como objetos de seus desejos.

O debate sobre essa matriz de pensamento precisa ganhar o engajamento das empresas, das mídias e chegar na sala de aula para formar estudantes críticos a esse tipo de visão de mundo.

As empresas sérias precisam incluir em suas pautas de treinamento e nos seus códigos de conduta o combate contundente de qualquer expressão sexista, misógina e machista. Os governos de todas as esferas municipais, estaduais e federal precisa separar orçamento e criar projetos que reduzam os danos dessa sociedade que mata mulheres e violenta as crianças. Os poderes legislativos e judiciário devem ter a capacidade ética de utilizar seus orçamentos e produzir campanhas de conscientização e ampliar canais de denúncia e proteção.

Esse é um assunto que deve ser conversado na roda de churrasco com o primo, deve ser combatido nos grupos de futebol, de condomínio, da igreja… o que não podemos aceitar é homens como esses youtubers e parlamentares permanecerem impunes e livremente vociferando por uma sociedade ainda mais opressora.

O pensamento externado no áudio deve ser denunciado, punido e extinto de qualquer relação humana, inclusive quando vier dos nossos primos. A ação contra esse pensamento precisa ser econômica, boicotando empresas que não se posicionam, precisa ser social, ampliando o debate em todas as organizações da sociedade civil e precisa ser sobretudo política, exigindo posicionamentos claros e efetivos de todos que se colocam no campo democrático.

Diego Moreira é doutorando em Educação: História, Política e Sociedade pela PUCSP, professor universitário e pesquisador.