O diabo não é democrático
A busca apressada por soluções, sem medir as consequências futuras, é como o acordo de sangue firmado entre Fausto e o Diabo/ Foto: Divulgação

Goethe escreveu a peça teatral Fausto, um dos textos mais conhecidos em todo mundo, no qual um médico negocia sua alma com o diabo Mefistófeles em troca de vantagens para sua vida. Duas décadas mais tarde, exaurido o tempo do acordo, veio à cobrança da dívida e Fausto se nega a entregá-la. Mesmo assim é levado ao inferno. Ou seja, com diabo não há concessões e muito menos negociação.

Essa rica fábula, surgida na Alemanha do século 16, é atualíssima para o Brasil atual. Não se negocia a liberdade só existente na democracia, muito menos com quem se sabe muito mais forte e eficaz na cobrança das dívidas, no caso candidatos com viés autoritário.

Depois de assinado o trato, feito o pacto, no caso as eleições, a história muda. Sempre!  O preço a se pagar é muito alto, a própria alma. E nada pior que um povo sem alma, sob a sola de um coturno ou a mira de um fuzil.

A negociação, ao contrário do drama de Fausto, só existe na democracia, quando as forças são equivalentes. O Estado autoritário sempre tende a migrar para o totalitário. O autoritarismo está, hoje, em boa parte nas atividades do judiciário e do Ministério Público, que rasgam os direitos constitucionais do cidadão e impõem decisões meramente demagógicas e exibicionistas. Esse é o próprio diabo relembrando Fausto que seu acordo será cobrado.

O totalitarismo ocorre quando o Estado passa a ter controle de tudo, inclusive das liberdades individuais e se extingue por completo qualquer negociação ou clemência. Ou seja, a morte da democracia. Metaforicamente algo muito próximo à alma de Fausto sendo levada ao inferno.

E a busca apressada por soluções, sem medir as consequências futuras, é como o acordo de sangue firmado entre Fausto e o Diabo. E os riscos de arrependimento são enormes e sempre com lucro certo para Mefistófeles.

A república brasileira nunca passou por uma situação tão constrangedora. O mundo inteiro vê atônito a ascensão do fascismo como saída para a decadência moral. A reação, entretanto, foi à polarização infantil e que revela nosso déficit de cidadania.

Nestas eleições, desenhou-se o pior dos cenários: o radicalismo de extrema direita e uma esquerda mal resolvida e corrupta. Difícil momento para todos. Mas nem de longe é preciso empenhar a alma para resolver a questão, basta ter sabedoria e não cobiçar a facilidade oferecida pelo Diabo.

Adair Loredo, advogado, cientista social e doutorando em ciências sociais na PUC-SP