O mundo do futebol e o da música têm características convergentes. O talento nato, que faz surgir fenômenos, é um deles. Outro ponto em comum é o profissional fugaz. Aquele de uma só melodia de sucesso, de uma única partida brilhante. Depois, evaporam no anonimato. O declínio vem na mesma velocidade da frustração.

Marcelo Adnet, que surgiu como craque do humor e maestro do improviso, conhece bem a sensação do declive. E não soube lidar com ela.

O comediante despontou na MTV como um fenômeno, um showman, com a pretensa capacidade de reinventar a televisão. Era 2008. Ganhou alguns elogios da crítica e do público. Chamou a atenção da TV Globo, onde já havia feito pontas em programas de humor e novelas. Sabe aquele jogador que é formado na base de clube grande, é emprestado para um time menor, faz uns dois gols bonitos e volta com pinta de craque? A Globo caiu no canto.

Desde 2013, Adnet passeia pelo Jardim Botânico. O máximo de capacidade que conseguiu demonstrar foram algumas frases em servo-croata, língua que estudou por ter se encantado com a história da Bósnia, país do leste europeu que passou por uma sangrenta guerra no início dos anos 90. Em 2014, durante a Copa do Brasil, Adnet aproveitou a inesperada participação da Bósnia-Herzegovina no Mundial e desfilou suas gracinhas em diversos programas da Globo.

De lá para cá, o resultado no ar foi um constante 7 a 1. Contra o telespectador. O comediante virou uma caricatura, uma cópia pálida quase apagada do que poderia ter sido. Perdeu a graça, a verve, tentou formatos, piadas, mas nada, nada absolutamente deu certo.

O seu programa, o Tá No Ar, é constrangedor. Uma cópia pirata de TV Pirata (ok desculpem-me pela piada nível Tá No Ar). Com o exibido nessa terça-feira, foram 53 programas e zero repercussão. Poucas esquetes ganharam espaço na mídia especializada e nas redes sociais, exatamente aquelas que foram moldadas a partir do surrado expediente de artista em decadência: a apelação.

Parece não ter aprendido com a condenação judicial por humilhar, em 2011, quem tem autismo. Em nome do humor e do que trata como liberdade de expressão, Adnet resolveu promover o ódio e a segregação, especialmente a de caráter religioso.

É uma estratégia arriscada e nada inteligente de quem não tem dom para reverter à relação com o público. Não sabe como agir, não tem maturidade para lidar com a adversidade. Adnet perdeu a capacidade de dialogar com o telespectador, de reavivar aquela paixão antiga. Buscou a apelação, uma fuga, e traiu o seu público em praça pública. É um elo que se quebra, difícil de perdoar. O telespectador não merece ficar com Adnet.