A democracia dos favorecidos
Os banqueiros são os verdadeiros donos do Brasil e estão cada vez mais fortes e influentes nas decisões dos governos/ Foto: Divulgação

A democracia é um dos mais importantes estágios da evolução humana dentro da convivência social. Mesmo que essa ferramenta de equalizar direitos e deveres, participação e obrigação, constituição de um Estado mais justo, ela não está livre de erros, muito deles fatais para sua própria sobrevivência como regime de governo.

Os atributos democráticos que deveriam sobreviver e evoluir quando uma sociedade se torna mais participativa e consciente são cada vez mais manipuláveis, principalmente em países com terríveis desigualdades como no Brasil.

Além de ter a maior concentração de renda do planeta – ou seja, poucos com muito e muitos com pouco ou quase nada – estamos diante de um processo de distorção social e econômica.

Esse desvio na política pública tende sempre a prestigiar uma elite abastada. Como o caso dos bancos, que só produzem especulação e reforçam a concentração de dinheiro e poder nas mãos de alguns.

Os banqueiros são os verdadeiros donos do Brasil e estão cada vez mais fortes e influentes nas decisões dos governos.

Mas qual a ligação disto com democracia?  Muitas tantas que dificilmente conseguiria elenca-las neste breve artigo. Basta dizer que as democracias são suscetíveis ao poder econômico, que modela a sociedade e as formas de governar e de se escolher os ‘ representantes do povo’.

Como se pode conceber que num país ainda miserável, com milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, apenas um candidato à presidência de república, Henrique Meirelles, banqueiro, tenha gastado R$ 45 milhões do próprio bolso ao se aventurar numa campanha eleitoral?

O leitor consegue imaginar o tamanho deste desperdício e a imensa falta de espírito público, pois é uma soma tão considerável que se poderia – se realmente houvesse interesse no bem do brasileiro – se construir ambulatórios médicos, açudes, casas populares e tantas outras necessidades básicas de nossa sociedade.

Mas não, foram gastos num gesto de autoafirmação apenas para lustrar o ego de um endinheirado, numa demonstração de atraso de consciência social e humana. Isso tudo amparado em nome da democracia.

Enquanto não houver o mínimo de igualdade, de resgate da dignidade humana, de homens públicos realmente com espírito coletivo e sensíveis as catástrofes causadas pela miséria, estaremos tão longe da democracia quanto um cidadão comum de um banqueiro.

Adair Loredo, advogado, cientista social e doutorando em ciências sociais na PUC-SP